Agostinho, um dos mais importantes teólogos da Igreja no século V, acreditava que a imagem de Deus residia não na capacidade para pensamento abstrato, mas naquela para o autoconhecimento, a introspecção e a memória.
Experiências ditas religiosas ou espirituais, levam-nos a inferir que, relativamente à existência de Deus, o único lugar onde Ele poderia revelar-se para nós seria no emaranhado de vias neurais e estruturas fisiológicas de nosso cérebro.
A física quântica tem revolucionado os conceitos tradicionais de um mundo material e manifesto, que denominamos de espaço real, afirmando, por exemplo, que partículas podem se propagar como se fossem ondas e vice-versa, podendo, portanto, ser consideradas uma função quântica. Assim, experiências têm demonstrado que a luz pode se comportar como partículas ou fótons e, em outros experimentos, como ondas, sendo verdadeiros ambos os achados. Desse modo, de acordo com Niels Bohr, ondas e partículas são aspectos complementares da luz e da mesma “realidade”, descoberta que lhe valeu o Prêmio Nobel de Física em 1922. À velocidade da luz, tanto a velocidade de uma partícula como a de uma onda são idênticas. Mas, quanto mais lenta é a partícula, mais rápida é a velocidade da onda e, quando a partícula pára, a velocidade da onda torna-se infinita. O espaço-fase, invisível, gera eventos que podem ser localizados no tempo-espaço contínuo ou mundo manifesto — espaço real — e, portanto, visível. Assim, tudo o que é visível emana do que é invisível.
De acordo com S. Hameroff e R. Penrose (1995), os microtúbulos dos neurônios podem processar informações geradas por padrões auto-organizadores, produzindo estados coerentes, que poderiam explicar a possibilidade de experimentarmos pensamentos e consciência (ver Fig. 8). H. Romijn (2002) concluiu que campos eletromagnéticos em constante mudança, a partir de redes neuronais, podem ser considerados fenômenos de coerência quântica biológica e, possivelmente, “suportes” elementares da consciência.
É certo que a física quântica não tem explicação para a “essência” da consciência nem para o segredo da vida, mas nos ajuda a entender a transição de campos de consciência do espaço-fase para o mundo material, em cujo processo o córtex serve apenas como uma estação intermediária para partes da consciência e das memórias a serem recebidas pela consciência desperta.
Neste conceito, os autores citados afirmam que essa atividade — a transição da consciência do espaço-fase para o tempo-espaço contínuo — não se baseia em um substrato físico e comparam o campo da consciência à internet, a qual não se origina no interior do computador, mas é apenas recebida por ele. De acordo com essa hipótese, a vida cria a possibilidade de recebermos os campos da consciência na forma de ondas ou de informação em nossa consciência desperta, que pertence ao corpo físico e é constituída de partículas. O aspecto físico da consciência no mundo material se origina no aspecto de ondas da consciência no espaço-fase, por colapso da função ondulatória em partículas (redução objetiva), aspecto esse que pode ser medido e comprovado por magnetoencefalograma, eletroencefalograma, ressonância magnética e PET scanner. Esse novo conceito de “colapso da função das ondas” é vital para a compreensão desses fenômenos tão complexos.
O aspecto ondulatório de nossa consciência indestrutível no espaço-fase, sem interconexões locais, não pode ser medido por meios ou processos físicos. Segundo os autores, quando morremos, nossa consciência deixa de ter o aspecto de partículas para assumir o eterno aspecto de ondas. Com esse novo conceito sobre consciência, tanto a relação mente-cérebro quanto os fenômenos de EQM durante paradas cardíacas podem ser explicados. Segundo esses conceitos, o DNA do corpo funcionaria como uma antena quântica ou uma cadeia de bits quânticos (qubits) providos de uma torção helicoidal, funcionando como um aparato supercondutor de interferência quântica.
Os autores ilustram essa assertiva citando casos em que um receptor de transplante cardíaco recebe um coração com DNA diferente do seu e algumas vezes experimenta pensamentos e sensações novos e estranhos que, mais tarde, passam a combinar com o caráter e a consciência do doador já falecido.
É interessante estabelecer uma comparação entre esses fenômenos quânticos e os meios corriqueiros de comunicação através dos campos eletromagnéticos dos aparelhos de rádio, TV, telefones celulares, laptops e outros equipamentos sem fio. Não tomamos consciência da vastíssima quantidade de campos eletromagnéticos que constantemente atravessam nosso corpo, paredes e edifícios. Somente nos damos conta deles no momento em que ligamos um desses aparelhos e passamos a detectá-los sob a forma de imagem ou som, no momento em que conseqüências de causas que nos são invisíveis se tornam observáveis aos nossos sentidos e sua percepção atinge nossa consciência.
As imagens e os sons não estão dentro dos aparelhos nem a internet está dentro de computadores. Ao desligá-los, a recepção desaparece, mas a transmissão continua e a informação permanece nos campos eletromagnéticos.
Segundo a teoria da continuidade da consciência de Van Lommel, se a função do cérebro fosse perdida, como na morte clínica ou cerebral, as memórias e a consciência continuariam a existir, perdendo-se apenas a recepção pela interrupção da conexão. Ao tempo da morte física, a consciência continuaria a existir e a ser experimentada em outra dimensão, num mundo não-visível e imaterial — o espaço-fase — que contém o passado, o presente e o futuro. Infelizmente, os estudos de EQM não podem ainda fornecer provas irrefutáveis dessas conclusões. Afinal, esses pacientes não morreram, apenas estiveram muito perto da morte, por uma parada momentânea do funcionamento do cérebro. Resta-nos, então, a conclusão de que a consciência pode ser experimentada independentemente do funcionamento cerebral, o que poderá futuramente acarretar uma enorme mudança nos paradigmas da medicina, surgindo a possibilidade de se admitir que a morte, assim como o nascimento, constitui meramente a passagem de um estado de consciência para outro.
NEUROIMAGEM
A aquisição de imagens computadorizadas do cérebro humano por meio da tomografia computadorizada e da ressonância magnética tem nos fornecido imagens que nos permitem examinar esse órgão como se fosse uma peça anatômica em nossas mãos, excelência da exatidão dessas imagens radiológicas. Essa tecnologia trouxe progresso à neurologia, à psiquiatria e à neurocirurgia, permitindo o diagnóstico de lesões, tumores e outras doenças que, há duas ou três décadas, não seria possível.
Essas imagens, puramente anatômicas, associadas agora a exames funcionais do cérebro humano realizados por meio de radioisótopos, como o single photon emission computed tomography (Spect) e o positron emission tomography (PET), têm nos permitido realizar outros estudos além dos de anatomia. Com esses recursos, podemos registrar o funcionamento do cérebro durante convulsões, nas epilepsias, detectar seu fluxo sanguíneo, seu metabolismo, a ação dos neurotransmissores durante a atividade mental e neuropsiquátrica nas doenças e no cérebro normal e monitorar as funções de todas as áreas do cérebro durante as atividades motoras, sensoriais, comportamentais e cognitivas. Hoje esses registros constituem as bases para as pesquisas nas ciências neurocognitivas. Nas telas desses aparelhos, podemos determinar com precisão — e em cores — as áreas cerebrais envolvidas na elaboração e no entendimento da linguagem, assim como as áreas visuais e auditivas, a recepção e a sensação dos fenômenos dolorosos e as sensações superficiais e profundas. A ressonância magnética funcional (fMRI) também tem proporcionado dados impressionantemente precisos sobre o mapeamento funcional dessas várias áreas.
Newberg e outros pesquisadores (2001) têm utilizado especificamente o Spect, por ser mais simples, para o estudo da fenomenologia cerebral durante a prática de atividades espirituais em monges budistas voluntários e em freiras de clausura, dedicadas à vida monástica contemplativa, sobretudo durante estados de meditação profunda.
Nesse estudo, os autores encontraram um aumento importante do fluxo cerebral mapeado bilateralmente no córtex dos lobos frontais do cérebro, nos giros cíngulos e em ambos os tálamos. Em contrapartida, detectaram um decréscimo desse fluxo nos lobos parietais superiores, bilateralmente — o esquerdo, em geral, era mais afetado que o direito.
Em outros estudos de imagem cerebral, Lazar et al. (2000) utilizaram o exame de fMRI e Herzog et al. (1990-91), o PET scanner. Em ambos os casos, demonstrou-se aumento de atividade nas áreas frontais, sobretudo no córtex pré-frontal, concomitantemente à diminuição nas regiões parietais, coincidindo, portanto, com os achados de Newberg, que utilizou o spect.